Laboratório de Psicologia Escolar e Educacional – LAPEE
  • Carta a uma professora inesquecível

    Simone Vieira de Souza

     

    Querida Dona Lourdes,

    Hoje, 08 de março de 2021, a imprensa oficial atualiza o número de pessoas mortas por COVID-19 no Brasil. Mais de 265 mil. Insisto em manter a chispa utópica acessa. E numa tentativa agoniada, desde o ano de 2016, busco compor o front com os que lutam para além das telas e das páginas das redes sociais, procuro por algum nível de conforto no desamparo doloroso e sensação de uma história triste e [sem fim]… Ao considerar o que a minha pátria, nada gentil com seus filhos, tem produzido, registro a dificuldade de seguir. E para contrapor a sensação de terra arrasada, conecto com as memórias de um tempo que me ensinou sobre esgarçar os sentidos para poder ver grande, sentir grande, refletir grande… e só depois e sem pressa, ser caminhante. Essa memória e tempo trazem você, Dona Lourdes. Minha professora da primeira série. Por ser essa a memória, esse manuscrito só poderia ser um manuscrito-carta, endereçada para uma professora inesquecível. E por ser essa professora inesquecível, essa carta só poderia ser uma carta de amor.

    Nos encontramos na Escola Básica Visconde de Mauá, que se localiza na cidade de Tubarão, estado de Santa Catarina, sul do Brasil, em uma vila dos ferroviários. Era uma escola ocupada por filhas e filhos de trabalhadores. Vivíamos no regime da Ditadura Militar, ano de 1979: Estado autoritário, educação tecnicista, o imperativo do controle e da disciplina dos corpos, dentro e fora da escola, dava o seu contorno. Eu tinha sete anos de idade e frequentava à primeira série. A imagem que se condensou foi você nos dizendo: “Quando aprenderem a ler, conseguirão ler o mundo”! Suas palavras desencadearam tanta urgência e possibilidade. Eu queria aprender a ler. Não! Mais do que isso, eu necessitava ler para escrever palavras, compreendê-las, e poder ler o mundo. Hoje quando revisito sua frase, algo me diz que se ancorava num certo pensador, bastante incompreendido e atacado ultimamente.

    Sua sentença segue ecoando dentro de mim. E veja quanto tempo dentro do tempo se passou. Aliás, no que se refere ao tempo e suas marcas indeléveis, permanecer efetivamente e afetivamente com alguém, muito dependerá sobre a qualidade desse tempo-encontro-contato. Suponho ser esta uma chave importante, e que define quem seguirá conosco na categoria das pessoas inesquecíveis. De mãos dadas com você, e trilhando o [Caminho Suave] de uma cartilha adotada na época, que nada tinha de suave, tão pouco ganhava boniteza, desafios e convites, você produziu em mim, aos sete anos de idade, uma espécie de ponto luminoso. O que falava e o como falava, despertou em mim o gosto pelas coisas da escola e na vida fora dela, tão repleta de ambivalências.

    Sabe, Dona Lourdes, algo me diz que você iria gostar de saber da mulher que me tornei e sigo a construir. Sou uma idealista humanista, aprendi com você e com outros inesquecíveis professores que há que se ter sonhos coletivos para seguir caminhante, desejosa, implicada e aguerrida na construção de um mundo mais justo para todas, todes e todos. Nas disputas da vida, desde criança, evidenciei com quem eu seguiria fiel e aliada, e a quem me oporia no embate. Viver reivindica um posicionamento franco. O contrário disso me produz estranhamento, desconfio de quem o faz, saio de banda e sigo atenta. Ah! Você tinha toda razão sobre o ato de aprender a ler como um instrumento que nos habilita a ler o mundo. Que coisa grande é isso, não é?!

    Minha querida professora inesquecível, passados esses 42 anos da cena vivida, eu me encontro no capítulo em que a incerteza habita cada parágrafo, em que as páginas subsequentes parecem aumentar a tensão e o medo do por vir. Às vezes sou invadida por uma necessidade de interromper definitivamente a leitura, de fazer algo que me tire do contato do que os dados e as estatísticas insistem em denunciar. Nesse livro chamado Brasil, no ano de 2016, vivemos um golpe parlamentar, jurídico e midiático. O refrão síntese daquele momento nauseante e adoecedor, que mobiliza [ainda] tantos sentires, e traz a cena do espetáculo que foi amplamente explorado pela mídia golpista é: “Chegou a hora do grande acordo nacional com o Supremo, com tudo!”

    Sobre a história que tenho construído nesse mundo, na medida em que leio, resenho, sofro, compreendo… compartilho um pouco do que entre os anos de 2016 a 2019 estive fazendo. Nesse tempo, a rua e a luta coletiva, foram espaços de morada mais constante. Na rua e junto do meu bando, gritei “Não vai ter golpe”, “Fora Temer”, “Ele Não”, “Não a PEC da morte”, “Não a reforma trabalhista”, “Não a reforma da previdência”, entre outras urgências – capítulos do mesmo livro que me refiro. Nossa poesia, bordões criativos, arte, amor, gentes de cores e mundo diverso, princípios, lutas, seguidamente perderam a batalha. E a cada rasteira, mais um soco no estômago me levava ao chão. O que se erguia primeiro puxava o Outro, de modo constante e insistente, assim foi. Assim tem sido até aqui.

    Mas ainda quero dizer algo mais para você. Sigo sem respostas para uma porção de perguntas! Há ações indefensáveis nesse livro, e parece não haver síntese possível. Arrisco dizer que a ausência de respostas e indignação costuma me manter acordada. Me faz buscar o encontro com algumas pessoas, certo tipo de huMANOS, para compreender o que está em curso, buscar sustento, lutar de algum modo contra essa força que despotencializa a vida… porque “A gente combinamos de não morrer” (CONCEIÇÃO EVARISTO, 2016, p. 99). Pensar que você segue segurando a minha mão e que se eu cair, com sua voz firme e doce pedirá ao amigo que busque a caixa de primeiros socorros na secretaria, me leva para outro lugar, para o Brasil que quero.  E, assim sigo – mesmo que por vezes cambaleante – por você, por todos que me antecederam, pelos que seguem compartilhando suas vidas esperançadas, e aos que virão…

    Até sempre e com amor!

    Ilha da Magia(?), num tempo de esperançar de um ano pandêmico.

    EVARISTO, Conceição. Olhos D’Água. 1. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2016.

    * Denise Cord e Célia Regina Machado [das pessoas inesquecíveis]. Minhas “escutadeiras”. O olhar de vocês melhora o meu, obrigada.


  • Onde está a Psicologia escolar no meio da Pandemia?

    Acaba de sair o livro “Onde está a Psicologia escolar no meio da pandemia?”, organizado por Fauston Negreiros e Breno de Oliveira Ferreira. O LaPEE está presente com um capítulo, escrito por Marta Moraes, Maria Fernanda Diogo e Rogério Rosa! #LaPEE #LapeeUFSC

     O livro tem acesso gratuito pelo site da Pimenta Cultural. Acesse e compartilhe!

    https://12a44a16-333b-2afc-4c09-a9f4ce61c300.filesusr.com/ugd/143639_b1fbfb85ab1d4caaa6e7b3577b8464cc.pdf


  • Rudinei Luiz Beltrame

    Professor do curso de Psicologia da Faculdade CESUSC, formado em Psicologia pela Universidade do Sul de Santa Catarina (2013); Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Cultura, na Área de Concentração em Processos de Subjetivação, gênero e diversidades pela Universidade Federal de Santa Catarina (2019) e doutorando no Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC. Atua e tem interesse de pesquisas nos temas da medicalização da vida, escola, processos de escolarização, formação profissional em Psicologia e Direitos Humanos.

    http://lattes.cnpq.br/1850408431378226


  • Das lindezas que encontramos no caminho: notas sobre esperançar

    Raquel de Barros Pinto Miguel

    Dando sequência aos textos produzidos para o LAPEE, eu estava responsável pela escrita da segunda quinzena do mês de dezembro. Exaustão era a palavra naquele momento. Um cansaço costumeiro de final de semestre, acrescido pelo fato de que não havíamos tido um semestre costumeiro, quiçá um ano costumeiro…

    À exaustão já conhecida somavam-se as tensões e frustrações de uma primeira experiência vivendo a modalidade de ensino remoto: a frieza de câmeras desligadas, a aridez pela falta de olhares, de encontros… Não sei se posso falar em falta de afeto. Talvez tenha aprendido a me contentar com o mínimo: dois rostos visíveis em uma sala com 45 já traziam um certo alento.

    Como se não bastasse, o cenário por traz do ensino remoto era desolador: uma pandemia desenfreada, distanciamento dos que amamos, medo, sofrimento, máscara, álcool em gel, mortes… Tudo isso sendo vivido em meio a um governo que minimiza e nega a gravidade da situação, levando adiante um projeto político-ideológico de deixar morrer vidas “perdíveis” (Butler, 2019).

    Como uma otimista incorrigível, pensei que deixar a escrita deste texto para 2021 traria a oportunidade de uma escrita mais leve, mais otimista, com cara de recomeço. Mas 2021 nada mais tem sido do que um 2020 requentado. Aliás, um 2021 – que na verdade é um 2020.2 – que insiste em nos mostrar que a magia tão esperada no momento da passagem de um ano para outro é mera ilusão… Ou seria esperança?

    Muitos temas difíceis rondaram minha cabeça antes de iniciar essa escrita. Sinceramente, não queria trazer o primeiro texto do ano com um tom tão pesado quanto o que já estamos vivendo. Quase um ano do início da pandemia, nossos corpos e mentes já estão cansados, a saudade daqueles e daquilo que amamos só aumenta, a luz no fim do túnel parece ficar cada vez mais distante quando, além do vírus, estamos imersos em uma necropolítica.

    Mas, como já falei, o otimismo me acompanha e optei por seguir a direção de pequenas lindezas que, em meu caminho com professora, tornaram minha caminhada menos árida no ano que passou e neste que se inicia. Entre algumas experiências, escolho contar a que chamei de “Mosaico Paulo Freire”, que compreende uma das atividades na disciplina de Psicologia e Processos Educacionais (curso de Psicologia da UFSC), que teve como ponto de partida a leitura do livro “Pedagogia da autonomia”.

    Usando uma ferramenta (Padlet) que permite a criação de quadros virtuais, sugeri que criássemos um quadro com informações sobre a vida e a obra de Paulo Freire. A ideia era construir um mosaico com aquilo que mais tocou cada um/a dos/as estudantes a partir de suas leituras e buscas a respeito do educador brasileiro.

    O resultado foi lindo de se ver! Além de visualmente bonito, alegre e colorido, o mosaico reuniu, com muita sensibilidade, preciosas informações sobre Paulo Freire. Foi um momento de partilhar, trocar, aprender, ensinar, somar, construir, emocionar, afetar e deixar-se ser afetado/a. Uma empreitada coletiva que, ainda que virtual, estava impregnada de afeto, carinho, criatividade e descobertas.

    A cada vez que, junto aos/às estudantes, revisito obras de Paulo Freire, sempre me salta aos olhos a atualidade do pensamento freiriano. Em alguns momentos chega a causar espanto! Em “Pedagogia da autonomia”, ao falar sobre raiva e raivosidade, ele diz: “A mim não me dá raiva mas pena quando pessoas assim raivosas, arvoradas em figuras de gênio, me minimizam e destratam.” (Freire, 1996, p. 54)

    É sabido dos ataques sofridos por Paulo Freire no período de ditadura militar brasileira. É sabido, também, dos ataques que seu pensamento vem sofrendo nos últimos anos em meio à onda conservadora que assola o país. A atualidade de suas ideias, bem como as “raivosidades” que elas despertam, fazem-me pensar nos movimentos cíclicos que compõem a vida. Ciclos que, ao mesmo tempo que permitem que ideias retrógradas voltem à superfície, nos fazem lembrar que recomeços são possíveis. Que a luta – mesmo em meio ao luto – é imprescindível.

    E nessa luta, o educador que completaria 100 anos neste 2021, nos lembra de um ingrediente essencial: a esperança. Não se trata de uma esperança ingênua, quase mágica, que individualmente teria o poder de transformar a realidade. Segundo Freire: “Minha esperança é necessária mas não é suficiente. Ela só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos de herança crítica, como o peixe precisa da água despoluída.” (Freire, 1997, p. 5)

    Paulo Freire nos fala de uma esperança atrelada à práxis, pois somente assim pode vir a ser uma realidade histórica. Como ele diz: é esperança do verbo esperançar. Esperançar é coletivo, é estar junto na luta contra opressões. É o que move a luta coletiva em prol de uma vida mais justa, ética, igualitária e comprometida.

    Esperançar, no atual cenário, já é – por si só – um gesto de luta. Como diz o grande educador (em mais uma de suas frases mais atuais do que nunca): “Num país como o Brasil, manter a esperança viva é, em si, um ato revolucionário.”

     

    BUTLER, Judith. Quadros de Guerra – quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

    FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra S.A, 1997.

     

     

     

     

     


  • Projeto de Extensão do LaPEE, finalização e novas aberturas!

    Este ano desenvolvemos o Projeto de Extensão Formação continuada: atuação da psicologia em contextos educativos e de escolarização. Este projeto visava promover a atualização e ampliação de conhecimentos teórico-metodológicos para psicólogas(os) que atuam em escolas, organizações sociais e outros espaços onde ocorrem práticas e relações educativas, por meio da oferta de um Curso de Extensão na modalidade a distância. Infelizmente, por conta da pandemia, avaliamos a necessidade de prorrogar a oferta do curso.

    Contudo, estivemos ativos/as durante este ano. A equipe do projeto cresceu, sendo integrado por 25 pessoas, entre docentes, estudantes da graduação e da pós-graduação, psicólogas e educadoras.  Focamos em 2020 na qualificação da proposta formativa, na elaboração dos materiais didáticos e na formação da equipe do projeto.

    Em nosso encontro de avaliação final do projeto, apresentamos as atividades realizadas, a avaliação da equipe acerca do curso “psicologia, interseccionalidade e processos educativos”, o qual nos qualificou para a elaboração dos materiais didáticos, bem como apresentamos a proposta da segunda versão do projeto de extensão que será desenvolvido em 2021. Ano quem o projeto será ampliado visando a formação continuada de profissionais que atuam em contextos educativos em Santa Catarina, além da oferta do Curso de Extensão: Psicologia Escolar e Educacional na contemporaneidade, voltado para psicólogas/os.

    Agradecemos a todos/as pelos encontros formativos e afetivos que tivemos neste ano tão difícil!

    Imagem: Encontro online de avaliação do projeto.


  • Livro do LAPEE: “Psicologia Escolar e Educacional: processos educacionais e debates contemporâneos”

     

    A live de lançamento do livro do LAPEE é hoje, dia 07 de dezembro de 2020 no canal do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=VsmUWTegsXs&fbclid=IwAR2NChpXfqgWpjhPv3zXBpynjuF8e8-B6kLjFojKcIPE0M0nvYMuaerfgIY

     

    Endereço para o download do livro:

    https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/217611

    Baixe e compartilhe com quem quiser!!


  • Respirar em tempos de pandemia: afetos e relações de ensinar e aprender

     Neiva de Assis

     

    Acompanhei atenta meus colegas que anteriormente escreveram para o “Leitura da Quinzena” e, analisava sob qual ângulo eu abordaria a relação educação e pandemia por COVID-19. Afinal, a situação que vivemos exige ainda esforço de compreensão e reconheço em mim, muita dificuldade em nomear que momento é esse que estamos vivendo.

    Curioso que a pandemia prejudica justamente um aspecto elementar da vida humana: nossa possibilidade de respirar… de encher os pulmões e alimentar o corpo – processo que ocorre na maioria das vezes alheio à nossa consciência.

    Desde março estamos imersos em um caos de atividades de reprogramação do plano de ensino, ensino remoto, aproximação forçada com as tecnologias, encontros síncronos, crianças que vão à escola buscar materiais impressos, professoras que trabalham madrugada à dentro editando vídeos e postando tarefas, famílias de estudantes que agora se veem na tarefa de alfabetizar os pequenos e reaprender o conteúdo escolar. Basta dar uma olhadinha na página “A sociedade cala, a escola fala [1]” para constatar a condição pedagógica que estamos vivendo.

    Como e, em que condições retomaremos as atividades educativas curriculares? Como estarão professores e professoras, estudantes, brasileiros e brasileiras que historicamente já viviam a exclusão e a desigualdade social na experiência de ensinar e aprender? Para qual mundo estamos caminhando? Dia após dia a cena torna-se ainda mais desoladora, seja pelo número de contagiados e mortos, seja pelo modo como Estado e sociedade enfrentam (ou não) esse desastre.

    Respiramos cansados…

    Quando as atividades pedagógicas foram retomadas por meio do ensino remoto na universidade, questionava-me intrigada, como poderia provocar experiências significativas de aprendizagem aos estudantes na graduação. Considero que a aula é um acontecimento [2], momento vivo de valorização do saber, evento único e e, como tal precisa de corpos presentes em interação. Como produzir esse evento via computador?

    Propus aos estudantes que construíssemos um inventário de memórias da pandemia, do isolamento social. Desejei que montássemos um espaço de memória virtual com arquivos de pensamentos, sentimentos e ações deste momento. Evidente, que era também, um modo de, minimamente criar uma aproximação entre professora e estudantes, de nos reconhecermos como grupo de trabalho e para acolher a temática que não se esquece:

    estamos vivendo uma pandemia!

    Imaginamos um baú de sobrevivência a partir da arte e de atividades criadoras. Estudantes participaram das mais diversas formas contando o que andaram inventando nesse período angustiante. E inventaram tanto! Poesia, música, textos, fotos, relatos, imagens que revelavam processos criativos e imaginativos. Dentre eles só pra citar um exemplo, um estudante criou uma flauta a partir de cano de PVC. Uma flauta de cano PVC! Podem tanto! – eu pensava. E submetemos, nós professores, dia após dia esses sujeitos que criam às burocracias e institucionalidades educacionais e, deixamos de fora outros saberes, modos outros de conhecer e experimentar o mundo.

    Vigotski, pesquisador russo, escreveu no livro Psicologia pedagógica [3] sobre sua defesa de uma escola que exista para fora dos muros. Tenho muito apreço por essa ideia e parece-me ainda mais relevante para pensar a escola pós pandemia. Tem tanta experiência potente acontecendo fora da lógica currículo-carteira-quadro de giz-nota … ou, em tempos de isolamento melhor seria: computador-videoconferência-fórum de discussão.

    Tem tanta gente criando arte e recriando a vida com aquilo que justamente dela escapa… E se o que estamos vivendo pudesse fazer com que valorizássemos a criação que ocorre na escola e na vida?

    Talvez poderíamos respirar melhor.

    E se a escola fosse possibilidade de experimentação do corpo em movimento, em expansão e que a gente pudesse dançar e cantar nos corredores? E se as famílias pudessem aproveitar o momento de isolamento social para reencontrar seus filhos em um outro tempo, menos acelerado e mais inventivo… Algo próximo ao que disse o educador italiano Francesco Tonuci [4]: “Não percamos esse tempo precioso dando deveres. Aproveitemos para pensar se outra escola é possível.”

    No entanto, na pandemia tem gente vendo na escola uma boa fonte de lucro, lançando ações na bolsa de valores – e, aparecem desde propostas educativas encartilhadas, e técnicas encaixotadas para lidar com o aprender e com a dor do isolamento. E pergunto: o que faz de uma escola uma escola, afinal? O ensino remoto na pandemia, que seria uma estratégia excepcional durante o isolamento, pode aligeirar a implementação da EAD, substituindo cursos presenciais com finalidades outras, pode favorecer a precarização da educação, do trabalho docente, da formação em psicologia, etc. Não consigo enxergar como sobreviver a pandemia e a necropolítica que se instala de forma oportunista, sem que seja com os afetos produzidos nos encontros coletivos.

    Minha recente e feliz aproximação com a temática dos povos tradicionais – primeiro no contato com uma terra Guarani em minha tese de doutorado e agora com um quilombo urbano em Florianópolis no trabalho com bolsistas de pesquisa e extensão na UFSC – fortalece a importância de restituir à nossa experiência, modos coletivos de estar no mundo. Tenho encontrado entre as rachaduras das calçadas na cidade e no muro da escola, experiências que valorizam os significados coletivos do viver e que produzem vida, capaz de confrontar momentos como o que estamos vivendo.

    Ailton Krenak [5] – mas também Casé Angatu Xukuru Tupinambá [6]; Alberto Tupã Ra’y [7], Guarani e, outros indígenas de diferentes etnias – diz que os indígenas não precisam resgatar o coletivo, pois a natureza indígena é coletiva. Há nessa afirmação tanta força de vida, tal qual o capim que brota em meio a rachadura do cimento. Poderíamos aprender com as diferentes etnias, sobre o viver coletivo e sobre como educar nossas crianças: “As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas” (…) Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida onde o indivíduo conta menos do que o coletivo. Este é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. O que as nossas crianças aprendem desde cedo é a pôr o coração no ritmo da terra” [8].

    Como os indígenas, tem muita gente que vive por aí e aqui, invisível entre as grandes cidades e as ruralidades que sabem muito bem como respirar, como brotar da terra. Vejo com esses anônimos, com esses sujeitos ordinários – como dizia Michael de Certau [9] ou ainda, sujeitos “lentos” – como diria Milton Santos [10] – um caminho possível, pautado na afirmação e alargamento da vida.

    Vi outro dia uma charge interessante da Laerte [11]: no primeiro desenho está ela, apoiada na pia do banheiro, convoca o leitor com os olhos e acima o seguinte texto: “Quando eu olho no espelho”. E em seguida, um novo quadrinho em novo ângulo mostrando o espelho e suas mãos que fecham a torneira. No reflexo no espelho, várias e variadas pessoas aparecem, com os dizeres “Eu vejo todo mundo”. Ou seja, ao olhar-me no espelho, vejo um mundo. Pus-me então a pensar sobre o que e quem nos compõe – problemática cara à psicologia. Do que somos feitos? Nos dias em que estou triste nesse isolamento social revisito minha história, reencontro os meus, que vieram antes de mim e que não estão mais por aqui, me reconheço nas minhas experiências vividas. Tenho um apego por miudezas e quinquilharias; guardo bilhetes, cartas, fotos, mapas, lembranças. Por ali permaneço por algum tempo, respiro e assim, me reconecto com a vida, com o meu trajeto e com tantos outros – de outros tantos que permitiram que hoje eu possa estar aqui escrevendo esse texto.  Seja no meu baú de histórias particulares, seja no inventário de memórias construído com os estudantes nos cursos de Psicologia e Licenciatura, localizo a importância de parar, respirar, pensar, sentir, produzir outras memórias, experiências sensíveis de contato com o passado e assim, poder lançar, quem sabe, adubo em uma terra que se possa projetar, criando um futuro em que se respire tranquilamente, em que a vida não seja cansada.

    Tal como, Eduardo Galeano [12] reivindico o direito ao delírio, de imaginar outra sociedade, outra escola, de criar outra experiência de vida, de aprender e de ensinar e, é com ele, que finalizo esse texto:

    Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja. As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar. Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal se delirarmos por um momentinho?

    [1]    A sociedade cala, a escola fala.  https://www.facebook.com/aescolafala/

    [2]   Geraldi, Joao Wanderley. A aula como acontecimento. São Carlos: Pedro e João Editores, 2015.

    [3]  Vigostki, Lev. Psicologia pedagógica. Tradução do russo e introdução de Paulo Bezerra. (Coleção textos de Psicologia). 3a. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

    [4]  Tonucci. Francesco. Não percamos esse tempo precioso com lição de casa. El País. 12 de abril de 2020. https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-04-12/francesco-tonucci-nao-percamos-esse-tempo-precioso-dando-deveres.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM#Echobox=1594173985

    [5]  Ailton Krenak, Vozes da Floresta – A aliança dos Povos da Floresta de Chico Mendes a nossos dias. Direção Thiago B. Mendonça. Abril de 2020. https://www.youtube.com/watch?v=KRTJIh1os4w&t=125s

    [6] Machado, Ricardo. Entrevista especial com Angatu Xukuru Tupinambá. Instituto Humanitas UNISINOS, janeiro de 2019. http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/582140-nos-nao-somos-donos-da-terra-nos-somos-a-terra-entrevista-especial-com-case-angatu-xukuru-tupinamba

    [7] Tupã Ra’y, Alberto. Curso de Guarani. Museu do Índio UFU.2020. https://www.youtube.com/watch?v=eAfICmlKntQ&feature=youtu.be

    [8] Krenak, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras. 2020.

    [9] CERTEAU, Michel: A invenção do cotidiano: volume 2. Morar, Cozinhar. Petrópolis: Vozes, 2013.

    [10] SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2014.

    [11] Coutinho, Laerte. https://www.instagram.com/p/CHqnCqSsVdc

    [12] Galeano, Eduardo. El derecho al delírio. https://www.youtube.com/watch?v=5wD9mxn45nc

     

     

    (Agradeço Denise Cord, parceira do LAPEE; João Eduardo Martins, estudante de Psicologia e Evandro de Assis, meu irmão pela leitura e do texto)


  • Live de lançamento do livro do LAPEE

    Convidamos todas as pessoas interessadas a participarem da live de lançamento do primeiro livro do LAPEE: “Psicologia Escolar e Educacional: processos educacionais e debates contemporâneos”.
    O lançamento será no dia 07 de dezembro às 18h!
    Pelo link:

  • Lançamento do livro do LAPEE/UFSC

    A dica desta quinzena é especialíssima: o Lapee acaba de publicar pela Editora do Bosque o livro “Psicologia Escolar e Educacional: processos educacionais e debates contemporâneos”.
    Em breve, divulgaremos a Live de lançamento, que ocorrerá no dia 07/12/2020 (agendem-se!).

  • Como construir uma escola que acolha a todas as pessoas?

    Marivete Gesser

    A escola, pelo menos no Brasil, nunca foi para todos. Na educação básica, esta instituição tem excluído sistematicamente estudantes que de alguma forma não se enquadram no ideal de sujeito normativo (Patto, 2015). A aprovação da nova Política Nacional de Educação Especial em 30 de setembro de 2020 pelo governo federal Brasileiro, a qual permite a segregação de estudantes com deficiência em instituições de ensino especiais, reitera a primeira afirmação do texto. Destaca-se que esse ideal de estudante a qual a escola está preparada para acolher é o de alguém que seja física e mentalmente capaz para se adaptar aos espaços e às práticas pedagógicas que pouco se modificaram no que se refere ao acesso ao conhecimento e ao acolhimento das diferenças. Por meio de suas práticas, a escola não exclui somente com base na capacidade de aprender, mas também pela intersecção de processos discriminatórios tais como o racismo, o sexismo, a LGBTIfobia, o capacitismo e o classismo, que produzem diferentes enquadramentos dos estudantes que estão lá inseridos, vulnerabilizando uns e privilegiando outros.

    No Núcleo de Estudos sobre Deficiência da UFSC (NED), que venho coordenando desde 2017, temos pensado muito sobre a relação desses processos históricos de exclusão reproduzidos no interior da escola e nas relações destes com o capacitismo. Além disso, temos produzido pesquisas focadas na construção de práticas anticapacitistas. Mas talvez o leitor deva estar se perguntando: O que é o capacitismo?

    O capacitismo é um conceito trazido para o Brasil pela antropóloga Anahi Guedes de Mello com um intuito de nomear processos discriminatórios vivenciados por pessoas com deficiência. Fiona Capmbell (2009) destaca que esse processo é baseado no modelo biomédico e opera como um sistema que hierarquiza e oprime corpos com base nas capacidades. Embora as pessoas com deficiência são as que mais sofrem os efeitos do capacitismo, todas as pessoas que não se enquadram dentro do que é esperado em termos de capacidade, sejam estas mulheres, pessoas LGBTI, indígenas e negras, por desviarem do ideal universal de ser humano – que tem como principais parâmetros ser homem, branco, do norte global, cis, heterossexual e totalmente independente – são patologizadas e entendidas como menos capazes.

    Com base no diálogo com autores como Fiona Kumari Campbell, Robert McRuel, Gregor Wolbring e Sunaura Taylor, em texto produzido em coautoria com Pamela Block e Anahi Guedes de Mello, partimos do pressuposto de que o capacitismo é estrutural e estruturante da sociedade. Ou seja, este condiciona, atravessa e constitui sujeitos, organizações e instituições, produzindo formas de se relacionar baseadas em um ideal de sujeito que é reproduzido por um ideal de capacidade normativa que gera como efeito a compreensão de que corpos de mulheres, pessoas negras, indígenas, idosas, LGBTI e com deficiência são naturalmente menos capazes. Consideramos também que as capacidades normativas que sustentam o capacitismo são produzidas com base nos discursos biomédicos que, sustentados pelo binarismo norma/desvio, têm levado a uma busca de todos os corpos a reproduzir a capacidade para se afastar do que é considerado abjeção (corpos abjetos são aqueles que, por divergirem do que considerado típico da espécie, busca-se distanciar a todo custo). Ademais, nossos estudos apontam a estreita relação entre o capacitismo e sistema capitalista, uma vez que este é beneficiado com a busca constante da ampliação das capacidades humanas para o incremento da produtividade.

    Os estudos que temos desenvolvido no campo da educação têm mostrado que estudantes que são atravessados pela intersecção entre sistemas opressivos como o capacitismo, sexismo, racismo, LGBTIfobia, colonialismo e classismo tendem a apresentar dificuldades de se enquadrar nas práticas educativas desenvolvidas na escola, as quais tendem a ser voltadas à adaptação dos corpos para a reprodução do sistema social vigente. Mas como subverter este modo como a escola tem estruturado suas práticas? Se a escola é uma instituição constituída por sujeitos que são atravessados e constituídos pelo capacitismo – que é estrutural e estruturante da sociedade, como podemos produzir uma escola anticapacitista?

    Embora eu considere que este é um imenso desafio, acredito que uma estratégia importante é a de transformar os currículos dos cursos de graduação e de pós-graduação. Temos realizado estudos interessantes no NED, tanto relacionados à contribuição dos estágios profissionalizantes em Psicologia Escolar e Educacional, como também nas contribuições da oferta de uma disciplina baseada no campo dos estudos da deficiência para a produção de fissuras no capacitismo. Nossos estudos apontam que a oferta de disciplinas voltadas à compreensão crítica de outros sistemas opressivos como o racismo, sexismo, LGBTIfobia e classismo, bem como no campo das políticas públicas e dos direitos humanos, também oferecem importantes subsídios teórico-metodológicos para darmos conta deste desafio.

    Outra estratégia que temos voltado a nossa atenção se refere a produção de espaços e práticas educativas pautadas na perspectiva do acesso coletivo. O campo dos estudos da deficiência de matriz feminista – o qual tem como princípio a construção de espaços sem barreiras para corporeidades diversas – pode contribuir muito para que todos os estudantes sejam incluídos na escola. Elementos como à crítica ao ideal de independência e a incorporação da dependência e da interdependência como inerentes à condição humana desafiam a escola a acolher pessoas com diferentes características corporais e condições funcionais. A perspectiva interseccional do feminismo negro – que foi integrada aos Estudos da Deficiência de matriz feminista – também muito contribui para entender a complexidade das relações sociais produzidas na escola, muitas vezes opressoras de corporeidades que não reproduzem o ideal de sujeito moderno. A construção de pesquisas e práticas profissionais com as pessoas com deficiência, em consonância com o Lema do Movimento Político das Pessoas com Deficiência “Nada sobre nós, sem nós” também tem se mostrado muito importante para a construção de práticas anticapacitistas na escola.

    Aprofundar os princípios e contribuições dos estudos da deficiência de matriz feminista com foco na perspectiva do acesso coletivo renderia outro texto. Para quem tiver interesse em conhecer mais sobre o campo dos estudos da deficiência, coloco abaixo o link de acesso a uma contracartilha de acessibilidade, construída por ativistas acadêmicos do campo dos estudos da deficiência aqui do Brasil (1). E sobre os estudos da Deficiência, para iniciantes, sugiro o Livro de Débora Diniz “O que é deficiência” (2) e o caderno temático “Psicologia e Pessoas com Deficiência” (3) elaborado pelo nono plenário do CRP-12 em parceria com o Núcleo de Estudos sobre Deficiência da UFSC. Também indico o capítulo de livro intitulado “Por uma educação anticapacitista: contribuições dos estudos da deficiência para a promoção de processos educativos inclusivos na escola”, que será disponibilizado gratuitamente ainda neste ano (4). Por fim, indico os textos de “Politizar a deficiência Politizar a deficiência, aleijar o queer: algumas notas sobre a produção da hashtag #ÉCapacitismoQuando no Facebook” (5) de Anahi Guedes de Mello e “PesquisarCOM: política ontológica e deficiência visual” de Marcia Moraes (6).

    * Agradeço a leitura prévia e cuidadosa de Maria Fernanda Diogo e Juliana Silva Lopes

    Indicações de Materiais

    (1) Comitê Deficiência e Acessibilidade da Associação Brasileira de Antropologia. Contracartilha de acessibilidade: reconfigurando o corpo e a sociedade. ABA; ANPOCS; UERJ; ANIS; CONATUS; NACI: Brasília; São Paulo; Rio de Janeiro,

    1. 14p. Link de acesso.

    (2) Diniz, Débora (2007). O que é deficiência? São Paulo Brasiliense.

    (3) Caderno Temático do Nono Plenário do CRP-12 “Psicologia e pessoas com deficiência”. Tribo da Ilha: Florianópolis. Link de Acesso.

    (4) Gesser, Marivete (2020). Por uma educação anticapacitista: contribuições dos estudos da deficiência para a promoção de processos educativos inclusivos na escola. Em: Leandro Castro Oltramari, Ligia Rocha Cavalcante Feitosa, Marivete Gesser (Orgs.). Psicologia escolar e educacional: processos educacionais e debates contemporâneos. (pp. 93-113) Florianópolis: Edições do Bosque UFSC/CFH, 2020. Link de Acesso.

    (5) Mello, Anahi G. (2919). Politizar a deficiência, aleijar o queer: algumas notas sobre a produção da hashtag #ÉCapacitismoQuando no Facebook. In: Prata, Nair; Pessoa, Sônia C. (Org.). Nair Prata e Sônia Caldas Pessoa, Desigualdades, gêneros e comunicação. (pp. 125-142). São Paulo: Intercom. Link de Acesso.

    (6) Moraes, Marcia (2010). PesquisarCOM: política ontológica e deficiência visual. In: Marcia Moraes e Virginia Kastrup (Orgs.). Exercícios de ver e não ver: arte e pesquisa com pessoas com deficiência visual. (pp. 26-51). Rio de Janeiro: Nau.

    Referências

    Campbell, Fiona Kumari. (2009). Contours of Ableism – The production of disability and abledness. Palgrave Macmillan, UK, 2009.

    Gesser, Marivete, Block, Pamela, Mello, Anahi Guedes (no prelo). Estudos da Deficiência: interseccionalidade, anticapacitismo e emancipação social. Em: Gesser, M. Bock, Geisa L. K., Lopes, P. H. Estudos da Deficiência: interseccionalidade, anticapacitismo e emancipação social. Curitiba: CRV.

    Patto, Maria Helena de Souza (2015). Produção do Fracasso Escolar: Histórias de Submissão e Rebeldia.  Intermeios; 4ª edição.