A (des)continuidade possível

31/08/2020 14:46

Denise Cord

Desde meados de março de 2020, tenho acordado com a estranha sensação de não saber por onde começar a viver as horas renovadas pela noite. Não que eu de fato não saiba, afinal no dia anterior, graças ao meu papel social de profissional docente, recebi ou me coloquei tarefas a desenvolver on line, acionando o link enviado, password para uma live. Muitas das tarefas desenvolvidas envolvem outras pessoas, conectadas a partir de diferentes papéis, ao desafio de educar e educar-se nestes tempos. Dia destes, conversando com orientandas(os) sobre incertezas em relação à validação de atividades de estágio na modalidade remota, por mais de uma vez tive a sensação de que a conexão digital havia falhado e perguntei: “estão me ouvindo? Aparecem “congeladas” aqui pra mim!” De imediato, movimentos faciais e a resposta de que sim, estavam presentes, que a conexão não tinha caído.  Constituirá o dia-a-dia do calendário excepcional afirmar presença e conexão ao mesmo tempo em que assumimos a retirada de nossos corpos dos espaços de formação e a ruptura do vínculo físico com os sujeitos atendidos .

Deste lugar docente, cada hora do relógio segue sendo ocupada como antes do distanciamento social imposto pela pandemia: trabalho – intervalo – trabalho – fim de expediente. Tic Tac, Tic Tac… o dia termina, cai a noite, os telejornais reafirmam o aumento do número de casos e de mortes no Brasil, a baixa porcentagem de pessoas em isolamento social, a indiferença das gentes às regras de distanciamento social e do uso de máscaras, o descaso e o descrédito em relação à ciência, a esperança da chegada de um antídoto a qualquer momento, a aposta na tal imunidade de rebanho, os casos de corrupção envolvendo compras superfaturadas de equipamentos e remédios, a necessária retomada das aulas em escolas e universidades, mediante protocolos de segurança… hora de dormir… hora de acordar  –  afinal, especialistas afirmam que é importante manter uma rotina durante a pandemia.

Um cenário em ruínas e, ao mesmo tempo, em reconstrução. Tem-se definido assim a contemporaneidade pandêmica. Um cenário que inclui escolas e contratos pedagógicos. Protagonistas de uma cena que queremos acreditar será breve, excepcional, docentes e discentes teremos que recriar o éthos educacional. Mesmo que já o antigo pouco nos contemplasse ou representasse, especialmente pelo caráter abstrato do conhecimento acadêmico, pouco afeito às relações com a prática e as realidades vividas.

Mas exatamente o que ruiu? E o que estamos sendo impelidos a reconstruir? O conjunto de ferramentas que temos disponíveis para este momento de reconexão com nossos papéis de educadoras(es) e de educandas(os) não nos permite partir destas questões. Antes, nos impele a uma atitude calculista, burocrática, adaptativa e  excepcional. Seremos  virtualmente as(os) mesmas(os) docentes e discentes, reforçadas(os) em seus papéis assimétricos, vinculadas(os) a um contrato pedagógico marcado por um conjunto de afazeres habituais, controladores de assiduidade, participação, nota?

Não seria este o momento de reconhecer que estamos no mesmo barco da (des)continuidade, que não temos as respostas ou pelo menos que as perguntas hoje são outras e superam nossa capacidade de respondê-las? Não seria este o momento de convidarmos uns aos outros para a reconstrução do éthos educacional? De fazer do cotidiano, do vivido e experimentado, questão? Quem está convocado à esta cena educativa excepcional? Qual a continuidade possível hoje, depois que aproximadamente 120.000 vidas foram interrompidas pela COVID 19 no Brasil?  Quem estará presente neste cenário remoto, sem cheiros, gostos, cores, corpos? Como lidar com a ressonância das ausências de fato – evasão escolar que chama, né? e das ausências vividas por trás das câmeras – de toque, de olhar, de sorrisos síncronos, de cumplicidade, de aconchego – mantendo relações de ensino e aprendizagem efetivas e afetivas?

Façamos o que for possível com as ferramentas que temos, mas não atendamos a convocações para uma continuidade que não faz sentido. Não cedamos ao fetiche comunicacional, ao passatempo informativo. Estejamos de fato presentes, assumindo o que ruiu, o que está ruindo e o que foi possível criar. Que estejamos  comprometidos com a co-criação de um outro ethos educacional, sem rechaço nem submissão contemplativa, inconcluso, aberto, provocativo, convidativo.  Mantenhamos, como Jacques Derrida[1] nos ensinou, a atitude atenta de um herdeiro, sendo ao mesmo tempo fiéis e infiéis ao que antecedeu a este momento histórico:

(…) esta mesma herança ordena, para salvar a vida (em seu tempo finito), que se reinterprete, critique, desloque, isto é, que se intervenha ativamente para que tenha lugar uma transformação digna desse nome: para que alguma coisa aconteça, um acontecimento, da história, do imprevisível “por vir” (p.13)

[1] DERRIDA, Jacques; ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã…diálogo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.

Videoteca: “Saúde mental de estudantes: o cuidado de Si e do Outro como ética afirmadora da vida”

31/08/2020 14:21

Live organizada pelas coordenações dos cursos de graduação em Arquivologia, Biblioteconomia, Educação do Campo e Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

 

Professores LAPEE

Maria Fernanda Diogo

Rogério Machado Rosa

Psicóloga

Juliana Rego Silva (pesquisadora Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Cultura – EBP/SC)

 

O vídeo pode ser acessado pelo link

https://www.youtube.com/watch?v=x8DrXYq7T7Y

 

 

Manual “Psicólogas(os) e Assistentes Sociais na rede pública de Educação Básica: orientações”

25/08/2020 16:05

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) sistematizaram o manual “Psicólogas(os) e Assistentes Sociais na rede pública de Educação Básica: orientações para regulamentação da Lei no. 13.935, de 2019”.

Leitura obrigatória para as(os) psicólogas(os) escolares e educacionais.

O Manual pode ser acessado e baixado aqui: https://prosped.com.br/wp-content/uploads/2020/08/MANUAL-PSICOiLOGASOS-E-ASSISTENTES-SOCIAIS.pdf

#ficaadica #lapee #ufsc

Participação no curso de Aperfeiçoamento Psicologia Escolar e Educacional: Formação continuada em rede na Grande Dourados/MS

25/08/2020 15:54

A professora Lígia Feitosa, integrante do LAPEE, conduzirá a palestra “Psicologia Escolar – que identidade é esta?” na II Reunião de Rede de Psicólogas(os) Educacionais e Escolares da Região da Grande Dourados.

O encontro online será no dia 28 de agosto, às 10h, transmitido pela plataforma Meet.

Esta atividade integra o Curso de Aperfeiçoamento Psicologia Escolar e Educacional: formação continuada em rede na Grande Dourados/MS, direcionado a psicólogas(os) escolares e educacionais institucionalmente vinculados às redes municipais, estadual e federal de ensino em Mato Grosso do Sul, promovido pela parceria do Grupo de Pesquisa em Psicologia, Educação e Trabalho: inclusão em diferentes contextos (GEPETIN_contextos CNPq/UFGD) e do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Humano e Educação Especial (CNPq/UFMS).

#ficaadica #LAPEE #UFSC

Semanas Acadêmicas de Psicologia

25/08/2020 15:47

Dia 27 de agosto comemoramos o dia da/o Psicóloga/o.

A semana está recheada de atividades online que debatem as diversas áreas e campos de atuação da profissão.

Pesquisadoras do LAPEE estarão participando de duas Semanas Acadêmicas de Cursos de Psicologia em Santa Catarina.

No dia 26 de agosto, quarta-feira, a professora Raquel de Barros Pinto Miguel estará participando de uma roda de conversa “Mídia, tecnologias digitais e produção de subjetividades”, na Semana Acadêmica do Curso de Psicologia do CESUSC/Florianópolis.

No dia 27 de agosto a professora participará do debate “Atuações em Psicologia”, na IES/Florianópolis.

Ainda no dia 27 de agosto, quinta-feira, a professora Apoliana R. Groff e a psicóloga Juliana Lopes participarão da mesa redonda “Medicalização no contexto da educação”, na Semana Acadêmica do Curso de Psicologia da ACE/Joinville.

As inscrições são gratuitas. Os links serão disponibilizados nos sites das instituições de ensino. Participem!

Trabalho remoto na pandemia

20/08/2020 11:25

Trabalho remoto na pandemia

Carlos José Naujorks

Estamos em um daqueles tempos ambíguos em que, por vivenciarmos uma crise, esperamos alguma mudança. De preferência, para melhor. Não parece ser o caso do trabalho em sua relação com o sujeito. Ou, do sujeito ter no trabalho sua possibilidade de realização. A pandemia do Covid-19 colocou milhares de trabalhadores, de uma hora para outra, frente à necessidade do trabalho remoto. E aquilo que poderia ser uma promessa de maior diversificação e autonomia, tem se mostrado um tormento.

Somos 8,7 milhões de pessoas trabalhando de forma remota no Brasil. Dados do Ipea1 mostram que esse trabalho acontece, em termos proporcionais, majoritariamente no setor público. Nesse setor, em junho, 24,7% dos trabalhadores exerciam trabalho remoto, representando 3 milhões de pessoas. No setor privado, 8%, representando 5,7 milhões de pessoas. No setor público, o equivalente a 50,7% do total de ocupados podem, potencialmente, realizar o trabalho remoto, o que equivale a 6 milhões de trabalhadores. O distanciamento social possibilitado pelo trabalho remoto tem sido uma estratégia fundamental no combate à disseminação do Covid-19. Essa forma de trabalho deve, em grande parte, permanecer mesmo após a pandemia. No entanto, o trabalho remoto nos obrigou, repentinamente, a realizá-lo limitados às condições de infraestrutura que pessoalmente dispomos, a dividir o espaço do trabalho com a família e a vida doméstica e a organizá-lo em um tempo que deixa de ser apenas o tempo do trabalho, mas que é, também, o do cuidado de si, dos filhos e da casa. Essa informação assume maior relevância quando consideramos que o perfil do trabalhador em trabalho remoto é a mulher (branca, com nível superior), entre 30 a 39 anos2.

Além disso, é importante considerar a profunda desigualdade presente no trabalho remoto.  Antes da pandemia, o percentual de pessoas que trabalhavam em casa, no Brasil, era de 4,9% e abrangia majoritariamente trabalhadores autônomos (88,3% do total). Hoje, esse grupo representa menos de 15% do total, sendo a grande maioria composta por gerentes, pessoal administrativo, professores, ou seja, um grupo mais escolarizado e com maior acesso a infraestrutura digital3.

O acompanhamento a trabalhadores, ao longo deste tempo de pandemia, torna possível algumas considerações sobre as características do trabalho nessas condições. Longe de esgotar a diversidade dos aspectos envolvidos, faz-se, aqui, uma breve reflexão sobre seus impactos na relação entre o sujeito e o trabalho.

De forma imediata, pode-se elencar como presente nesse processo as dificuldades em relação ao acesso e ambientação às tecnologias para o trabalho remoto, à necessidade de novas configurações das rotinas de trabalho e, também, à relação estabelecida entre o trabalho e o ambiente doméstico e familiar. Este último aspecto aparece como definidor da relação entre o sujeito e o trabalho. Três aspectos colaboram para isso: o peso das tecnologias instantâneas de comunicação, a interpenetração entre as atividades de trabalho e atividades da vida privada e, por fim, a sobreposição entre distintos papéis sociais.

Muito do trabalho remoto tem se organizado por meio de tecnologias de comunicação que permitem uma resposta quase imediata pelo trabalhador. Isso acontece com o e-mail, as mensagens de texto e, principalmente, com o WhatsApp.  Corresponder a esse imediatismo aparece para o trabalhador, frequentemente, como uma demanda auto imposta. Além disso, as atividades síncronas, como as Webconferências, são realizadas de forma intensa, exigindo, principalmente de quem as coordena, atenção exclusiva, sem a diversidade e a riqueza das relações estabelecidas face-a-face. Isso se agrava quando os temas envolvidos são mais complexos e os elementos expressivos decorrentes da interação imediata são relevantes.

Observa-se, também, que o uso dessas tecnologias acontece intermeado pelas atividades da vida privada. Seu uso corriqueiro praticamente anula as distinções entre a vida doméstica e a vida do trabalho. Não que esses limites não fossem, antes, permeáveis. A distinção espaço-temporal dada pelos horários e ambientes de trabalho, característica da sociedade industrial, permitia uma separação relativamente nítida desses momentos. As tecnologias de comunicação foram aos poucos intensificando as interligações entre um espaço e outro. Agora, com o trabalho remoto, as Webconferências, chats, as mensagens eletrônicas, os contatos via WhatsApp, entre outros, interpenetram e convivem com a família e a vida doméstica. A fragmentação temporal do trabalho o expande, fazendo com que o trabalhador dele se ocupe em momentos que antes eram destinados à família e ao cuidado do cotidiano. Da mesma forma, esses espaços perdem qualidade, na medida em que são, também, divididos com as demandas decorrentes do trabalho. Situações de esgotamento psíquico surgidas nesse contexto começam a ganhar destaque4. Torna-se um desafio, para o trabalhador, estabelecer os limites entre essas esferas e, principalmente, encontrar no cotidiano doméstico os momentos para o trabalho e reorganizar as atividades familiares.

Também, diferente do que acontece agora no trabalho remoto, o ambiente do trabalho restringia, de certa forma, a atuação do sujeito ao desempenho do papel profissional. No ambiente doméstico, outros papeis ganham saliência, principalmente o cuidado dos filhos. Se, no ambiente tradicional de trabalho, havia uma uniformização decorrente das exigências do desempenho do papel, agora a diversidade das situações nas quais está envolvido o sujeito ganha destaque.  Assim, além da pessoa organizar sua dedicação ao trabalho, cabe pensar como serão consideradas suas particularidades.

Se há algo que estes tempos ambíguos podem permitir, é uma desnaturalização da forma como se olha a realidade. E esse pode ser o caso do trabalho. O atual contexto nos permite recolocar o trabalho em relação à nossa vida privada, evidenciado seu significado frente ao sentido que damos para nossa vida familiar, doméstica e intima. Aqui ganha importância os processos de comunicação voltados para o entendimento e a dimensão afetiva das relações profissionais. Se o que percebemos é que os meios tecnológicos que possibilitam o trabalho remoto viabilizam mais a dimensão burocrática das organizações, seus processos e resultados em detrimento do sujeito que trabalha, aparece como desafio pensarmos os espaços de ampliação da participação e de expressão desse sujeito trabalhador.

Uma perspectiva crítica frente ao trabalho e seus processos, que revele seus sentidos para o próprio sujeito e os processos naturalizados pelos quais ele é burocraticamente reproduzido, mais do que um chavão a ser indistintamente usado, torna-se um recurso político e epistêmico fundamental para enfrentar, justamente, aquilo que nos atormenta.

1 – Material disponível em:  https://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/2020/08/o-teletrabalho-no-setor-publico-e-privado-na-pandemia-potencial-versus-evolucao-e-desagregacao-do-efetivo/ Acesso em 14/08/2020.

2 – Material disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=36288&catid=131

Acesso em 14/08/2020.

3 – Rede de Pesquisa Solidária – Boletim No. 16. 17 de julho de 2020

4 – Alfageme, Ana (2020) O sonho do ‘home office’ vira pesadelo na pandemia.  Material disponível em: https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-08-09/o-teletrabalho-nao-era-isto.html. Acesso em 14/08/2020.

Primeiro encontro do Curso de Extensão: “Psicologia, Interseccionalidade e Contextos Educativos”

19/08/2020 11:35

Iniciamos em 18 de agosto o curso de extensão “Psicologia, interseccionalidade e contextos educativos”.

Este curso visa aquecer e preparar a equipe do LAPEE para elaboração e oferta, em 2021, do Curso Formação Continuada “Psicologia Escolar e Educacional na Contemporaneidade”, que terá como público alvo Psicólogos/as que atuam em contexto educativos e de escolarização em Santa Catarina.

O tema debatido no primeiro encontro foi “Epistemologia feminista negra e interseccionalidade” com a palestrante convidada a professora Dra. Halina Leal.

Esta atividade está vinculada ao Projeto de Extensão “Formação continuada: atuação da psicologia em contextos educativos e de escolarização”.

Livro: “Vigotsky no Ensino Superior: concepção e práticas de inclusão”

11/08/2020 11:07

A dica dessa quinzena é o livro “Vigotski no Ensino Superior: concepção e práticas de inclusão”, organizado por Paula Maria Ferreira de Faria, Denise de Camargo e Ana Carolina Lopes Venâncio e publicado pela Editora Fi. São 10 capítulos que discutem várias facetas do Ensino Superior utilizando a Psicologia Histórico-Cultural como escopo teórico. O acesso ao livro online é liberado (open acess) e pode ser feito pelo link: https://www.editorafi.org/731vigotski